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São Paulo, sábado, 02 de junho de 2007

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Crítica/narrativas

Edições trazem erotismo em dois tempos

Jurista renomado do século 17 e funcionária do Exército britânico escreveram marcos da literatura erótica sob pseudônimo

ELIANE ROBERT MORAES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Trezentos anos separam dois marcos do erotismo literário europeu que acabam de ser lançados no país. Propor uma aproximação entre eles é tarefa tão arriscada quanto tentadora. O mais antigo, publicado em meados do século 17, foi escrito por Nicolas Chorier, embora sua autoria seja atribuída a uma mulher já no título: "Os Segredos do Amor e de Vênus de Luisa Sigea". No mais recente, datado de 1966, ocorre algo diverso: a voz feminina que conduz o romance "Gordon" coincide com a assinatura de Edith Templeton, compondo uma narrativa de inspiração confessadamente autobiográfica.
Não é pequena a distância entre os autores. Advogado de formação e historiador por vocação, Chorier foi um jurista erudito que ocupava posição de destaque na corte francesa do Seiscentos. Já Templeton, nascida em Praga em 1916 e residindo hoje na costa italiana, passou a maior parte da vida no Reino Unido, onde conciliava a atividade literária com a de intérprete do Exército britânico.
Entre tantas diferenças, porém, destacam-se afinidades significativas. Para ficar só nos livros em questão, basta lembrar que ambos foram publicados sob pseudônimo, evidenciando um mesmo desejo de anonimato, a prolongar uma das mais antigas tradições da literatura erótica.

Romances perseguidos
"Gordon" foi lançado com a assinatura de Louise Walbrook, e logo proibido no Reino Unido e na Alemanha sob acusação de imoralidade. A saga da personagem que se apaixona por um psicanalista, abandonando-se a uma aventura amorosa marcada pela submissão sexual, reeditou o escândalo de romances como "História de O" e "Emmanuelle", perseguidos na década anterior. Por certo, essas interdições decorriam não só do veto moral, mas também da censura feminista ao polêmico tema do masoquismo feminino, o que obrigou Templeton a se esconder por trás de um pseudônimo até 2002.
No caso de "Os Segredos do Amor e de Vênus", a verdadeira assinatura só veio a público depois da morte do autor. Por temer que os escritos obscenos pudessem abalar sua reputação, Chorier apresentava o livro como a tradução latina, realizada por um filólogo holandês, de obra erótica criada pela poeta espanhola Luisa Sigea.
Uma fraude como essa, além de preservar a posição social do magistrado, por certo também divertia o humanista, que se deleitava em compartilhar textos clandestinos com uma reservada elite intelectual.
Herdeiro de Aretino -o mais famoso dos poetas renascentistas dedicados à tarefa de "expor a coisa em si"-, o escritor francês adotou a forma do diálogo licencioso entre mulheres que, concebida pelo italiano, fixou o modelo da moderna ficção erótica. Foi em torno desse modelo que se desenvolveu a vigorosa literatura libertina do Antigo Regime francês, caracterizada por um tom particular de dizer a obscenidade. Ao apresentar uma conversa picante entre mulheres, cuja liberdade vocabular é proporcional à alegria da nomeação, esses diálogos realizam uma celebração ardente e maliciosa dos prazeres da carne.
Ora, "Gordon" pertence a outra linhagem do erotismo literário, mobilizando tópicos bem mais próximos do que poderíamos chamar de "inconsciente sexual". Linhagem que dialoga com as descobertas da psicanálise, à qual pertencem obras como "História do Olho", de Georges Bataille, ou "Trópico de Câncer", de Henry Miller.
Se, do ponto de vista formal, esses textos pouco têm em comum, o que permite agrupá-los também é um certo tom -um tanto sombrio, no caso, e por vezes beirando o trágico.

Sexo e morte
No confronto entre os dois livros, o que salta aos olhos é justamente a passagem de uma libertinagem alegre para uma sexualidade soturna. Ao tom radiante de Nicolas Chorier -que esboça uma utopia do gozo, reconciliando o verbo e a carne-, se contrapõe o tom grave de Edith Templeton, a traduzir um irremediável pacto entre o sexo e a morte.
Sinal dos tempos, talvez. Banida da cena simbólica ao longo do século 20, e banalizada nas cantilenas da indústria cultural, a exaltação de um Eros feliz já não encontra espaço na paisagem sensível do mundo contemporâneo. Resta saber se, pelo menos secretamente, ela vem resistindo ao silêncio.


ELIANE ROBERT MORAES é professora de estética e literatura na PUC-SP e no Centro Universitário Senac-SP. Publicou, entre outros livros, "O Corpo Impossível" (Iluminuras/Fapesp) e "Lições de Sade -Ensaios sobre a Imaginação Libertina" (Iluminuras).

GORDON
Autor:
Edith Templeton
Tradução: Alyda Christina Sauer
Editora: Rocco
Quanto: R$ 45 (248 págs.)
Avaliação: bom

OS SEGREDOS DO AMOR E DE VÊNUS DE LUISA SIGEA
Autor:
Nicolas Chorier
Tradução: José Manoel Bertolote
Editora: Degustar
Quanto: R$ 49 (256 págs.)
Avaliação: ótimo

Leia trecho de "Os Segredos do Amor e de Vênus de Luisa Sigea"


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